Esperança Recôndita
Enfim a liberdade! Como ela gostava de estar livre por aí, sair de sua clausura e seguir para casa. A sua casa! Será que seus irmãos também estariam por lá? Bom, isso pouco importava para ela, se é que alguma vez importou. O que ela queria mesmo era percorrer por todas aquelas ruas atarefadas, se esticar um pouco e viver. Ela não se importava com as multidões, tampouco desejava se juntar a elas. Para ela, ser uma mera expectadora já bastava. Afinal, ela também era uma cidadã e merecia ser tratada com dignidade.
Por se sentir como parte daquele todo, resolvera deixar seus instintos aflorarem no verde que cobria o topo dos arranha-céus. Estes, que se antes pareciam engolir as cidades, hoje se harmonizavam com as demais obras divinas, como se tivessem sido desenhadas pelo próprio Criador. Era verdade que os telhados de outrora contribuíam para o aquecimento do mundo, no entanto, o mesmo não ocorria naquela cidade, pois os telhados gramados ajudavam a suavizar o calor e melhorar o frescor dos finais de tarde.
Depois de rabiscar com os pés a terra que produzia nutrientes para a grama se desenvolver, ela retomou seu percurso, mas não sem antes se admirar num daqueles vidros que cobriam os edifícios. Ao ver sua face refletida, mal teve tempo de recordar que há pouco estava do outro lado, observando o contraste da monotonia hipnótica das poucas nuvens que cobriam o céu com o andar trombado dos transeuntes, sempre aflitos, sempre com pressa. Mal se recordou que alguém entrou em seu recinto e lhe entregando um bilhete a pôs para fora, para a liberdade. Muito agradecida ela ficou, mas pouco demonstrou.
Algo em que ela nunca havia reparado fora na utilidade daqueles arranha-céus envidraçados. Os vidros não serviam somente para a estética, para embelezar a arquitetura moderna, os vidros também tinham outra utilidade, eles captavam a pouca luz solar que adentrava pela atmosfera terrestre e a transformava em energia. Como se os edifícios também tivessem vida e aquele fosse seu alimento.
Pouco abaixo, passando pelas ruas incrivelmente limpas, ela se deteve num daqueles locais onde informações são vendidas e a comida é farta. Juntou-se a dois homens distintos, que discutiam em meio a imagens holográficas coisas que não entendia. “Antigamente se usava um substrato das árvores para fabricar um material chamado papel. Nele, eles imprimiam tinta, juntavam algumas folhas e propagavam as últimas notícias do mundo.” Dizia um deles ao outro, boquiaberto, que tentava imaginar a equação insolúvel de quantidade de lixo produzido e matéria prima exaurida.
Realmente, lixo era uma coisa que não se via naquela cidade. O que era descartado não virava lixo, virava resíduo e esse resíduo era separado do jeito que seus avôs haviam ensinado a seus pais. Todo ele era levado para locais específicos nas calçadas, onde dutos muito bem sinalizados percorriam todo o subterrâneo da cidade até chegarem a uma central recicladora. O cidadão tinha apenas que abrir o duto correspondente ao resíduo, jogar o que seria descartado gargalo adentro e deixar que o ciclo se fechasse.
Um pouco cansada e vendo que o dia ameaçava uma despedida, resolveu se apressar passando rápida e invisível por todo o caminho que cortava a cidade para chegar ao local que os abastecia. Plantações de sumir de vista formavam um anel verde ao redor da cidade. E de cima de uma das poucas árvores que não os agraciavam com frutos, ela olhou para o espetacular perfeccionismo das máquinas, que mantinham incansavelmente tudo aquilo vivo. Nenhuma pessoa colocava as mãos nas plantações, tudo era feito por robôs bem programados. A irrigação vinha por baixo. Enormes receptáculos de água permaneciam abaixo de toda a cidade. Eles eram abastecidos pela água da chuva, que precisava ser tratada por ser considerada ácida demais, e por poços muito profundos, que transpassavam as rochas sãs que a poluição de outros tempos não conseguiu se infiltrar. Não havia rios atravessando a cidade, mas pontos de água foram equilibradamente colocados. A água sempre fora o elemental mais importante para a vida e por isso a necessidade de sempre tê-la por perto.
Aquele local era tão bom e tão relaxante, que ela resolveu se recostar e passar uma última noite agradável ao relento. Já no dia seguinte, após se fartar de frutos pela manhã, chegou ao seu destino. Quem será que a receberia? Nem ao menos essa pergunta ela se fez durante todo o percurso. No entanto, com lágrimas nos olhos, um homem a pegou delicadamente em suas mãos e a abraçou. Ela não retribuiu o abraço, mas pode sentir todo o seu afeto. Ela se calou e cerrou os olhos por uns instantes para apreciar melhor aquele momento. Como era bom estar em casa de novo. Só então o homem pegou o bilhete, leu-o e, após uns instantes, beijou sua face. Com todo o cuidado do mundo ele a pôs num recipiente a vácuo e lançou-a na atmosfera.
Voando para bem longe da redoma de vidro que recobria toda a cidade e que a protegia dos raios nocivos do Sol. Fazendo o papel de uma das camadas atmosféricas que fora destruída há muito. Ela batia suas asas, sentindo-se totalmente liberta, avistando, sem entender, todos aqueles inúmeros cata-ventos e painéis solares que se somavam ao abastecimento de energia de toda aquela cidade. Outro homem, que a tudo observava, quebrou o silêncio.
“Você sabia que há mil anos os pombos eram considerados sujos?”
Ao que o outro, vendo-a partir e a esperança retornar, sorriu.