Olhos Mágicos

“É essa!” Peguei firme com as duas mãos uma 6’3’’ degrade verde e amarela nos fundos da casa de alguém que se dizia um feitor daquelas maravilhas.


“Seu pai sabe que você está aqui?” Um amigo mais velho, que se tornaria meu cúmplice e exemplo, me olhava desconfiado, se certificando de que toda aquela história não acabasse sobrando também para ele.


Foi assim que iniciei minha vida perto das ondas, lugar onde nunca mais desejei me afastar. Na verdade, ela tinha se iniciado dois meses antes, em dezembro de 1994, revezando uma prancha emprestada numa praia incrustada no meio do litoral norte paulista com mais três amigos, que o tempo mostrou não terem tido a mesma sintonia com o mar.


O que realmente me levou a amar esse esporte não sei ao certo, mas a liberdade e o misticismo que o cercam foram fatores fulminantes. Eu podia simplesmente sair flutuando mar afora em cima apenas de uma tábua de poliuretano revestida com fibra de vidro e, quando voltasse moído para casa, poderia ler sobre histórias de lendas como Eddie Aikau ou heróis não identificados despencando de morras gigantes em Waimea Bay ou sendo encobertos pelo lip assustador de Pipe.


Mas voltando a liberdade, quando estava lá fora, sentindo a ondulação passar por mim, eu me esquecia de qualquer problema que pudesse ter. No céu, minha visão era disputada pelo voo de albatrozes, gaivotas e urubus, na água, apenas a linha do horizonte me interessava, tentando antever alguma onda que passasse despercebida, vindo com meu nome escrito nela.


Claro que no início ainda não possuía olhos de surfista, estes viriam com o tempo, mas era esperto o suficiente para saber me guiar pelos mais experientes. E uma das primeiras coisas que aprendi foi remar quando via os outros remando e, principalmente, em dias grandes, quando enxergar uma onda mais atrás fica complicado. Essa estratégia já me salvou inúmeras vezes de ser esmagado e de me dar uma estranha coloração roxa, quando ficar parado, vendo outros surfistas saindo em disparado para o outside, pode significar uma péssima opção. E faço um adendo de que quanto mais desesperados eles remavam, mais desesperado eu remava também.


Difícil também era enxergar se o mar estava realmente bom ou não, afinal, o importante era estar lá, sentindo aquela liberdade, longe de tudo e todos, em perfeita harmonia com a natureza, e por isso, os olhos que sempre chegam antes dos de surfista e podem ou não continuar ao longo da vida são os olhos mágicos. Estes sim são os que nos fazem apreciar cada segundo em cima de uma prancha ou de alguma outra atividade que amemos fazer. Fosse o tempo que fosse, o frio que fosse, o mar que fosse, o crowd que fosse, eu sempre estava lá conferindo, surfando com um sorriso largo estampado de face a face, admirando a magia com que a natureza formava cada onda.


Internet?! Quem precisa de internet quando se tem imaginação? Quando se tem olhos mágicos? Naqueles tempos a internet estava nos primórdios e pensar que um dia poderíamos ver uma ondulação entrando em tempo real do outro lado do mundo era surreal. Portanto não era difícil entender o porquê passava horas e horas dentro da sala de aula imaginando o quão perfeito o mar deveria estar e, se não bastasse imaginar, eu tinha que eternizar aqueles momentos nos meus cadernos. Em todos eles. Não me importando se eram apenas esboços, pois meus olhos mágicos davam cor, forma e movimento para os mesmos.


Um dia, quando ainda me vangloriava de fazer uma sessão de surf sem acertar com minha prancha um único pobre infeliz sequer e meu maior pesadelo era sonhar que eu não conseguia mais ficar de pé para deslizar reto numa onda já tentando virar na base, costumava perguntar humildemente a surfistas, cujos cabelos grisalhos delatavam sua experiência. “Como você faz para ir mais rápido na onda?” De vez em quando um daqueles senhores de pranchões bem que tentava alguma explicação, mas como em tudo o que você tenta conversar mais seriamente no mar, sempre acabava num “Você pega com o tempo!”, já me fazendo a boia para pegar a de trás.


Mas não é que eles estavam certos e eu aprendi a acelerar antes mesmo de dominar por completo a arte de permanecer sentado na prancha?! E logo, aqueles mesmos surfistas que eram antes pegos de surpresa em meio a tanta indagação, se viam rendidos a velocidade com que um garoto com força de vontade pode evoluir. Três meses depois já ensaiava um cut back e seis meses depois já estava acertando a primeira batida. Eu nunca tive o surf de um garoto prodígio, aliás, anos mais tarde, percebi que nunca fui o melhor no que me propus a fazer, mas sempre me destaquei. Por conta disso, hoje sei que cometia e ainda cometo muitos erros na minha linha, mas eles, perto da vontade com que encaro as ondas são meros coadjuvantes.


Com o meu surf numa evolução constante, era natural querer sair e desbravar outras ondas. Por isso, minha primeira surf trip fora escalar algumas pedras e me jogar no mar da praia ao lado. Vestindo um short john, acordei um amigo as 5:30h de uma manhã fria de inverno, com o orvalho da grama queimando nossos pés, para podermos aproveitar o quanto pudéssemos do terral e da solidão congelante. Fora numa manhã assim que vi pela primeira vez uma parede líquida cristalina me encobrir para segundos depois me arremessar paralisado e maravilhado para o fundo do mar.


Mas aquilo havia sido o bastante e meu sangue passou a fervilhar todos os dias que via que o mar podia me proporcionar aquela sensação novamente. “Quero ser um tube rider!” Dizia sempre sem ao menos saber o que significava a palavra “rider”. Aliás, essa não foi a única palavra que aprendi nesse novo meio e após certo tempo já tinha enriquecido e muito minhas expressões e gírias. Tanto que quase me tornei incomunicável. Mas ao contrário da minha dificuldade de me expressar verbalmente, meu surf fluía de vento em popa e quando vi um surfista dando um 360º numa junção de respeito, mudei totalmente minha visão do surf. Pelo menos foi até eu quebrar acidentalmente minha quilha do meio e perceber que essa manobra é um mero truque. Mas e daí? Quem sabia disso?


E assim que fui me desenvolvendo ao longo dos anos, mas ao mesmo tempo em que meu surf evoluía e meus olhos de surfista eram aprimorados, sem perceber, fui perdendo uma coisa importantíssima para mim. Como se aquela frase de que não se pode ganhar algo sem perder algo fosse a maior verdade do mundo. Comecei a ficar mais crítico em relação ao mar e as mesmas ondas que antes sempre me pareceram perfeitas, começavam a se apresentar não tão boas. Os invernos começaram a ficar mais frio a cada ano, o vento parecia nunca mais acertar e as ondas sempre gorduchas ou fechadeiras. Nem vou mencionar o fundo, esse sim parecia que deixou de colaborar de vez. E um dia, sentado num banco feito de um tronco de árvore de frente para o mar que me acolheu, perguntei para um amigo o que será que tinha acontecido. “Por que antes era tão melhor que agora? Deve ser o efeito estufa estragando o mundo inteiro ou a irresponsabilidade das pessoas construindo casas na orla e ameaçando as praias brasileiras?” Tudo isso tem sua razão, mas a bem da verdade, e que me dei conta só um tempo depois quando meu desejo de surfar havia se tornado mais uma mera obrigação, é que tinha perdido o brilho dos meus olhos ao ver uma onda. Eu havia perdido meus olhos mágicos.


Quando percebi isso me senti péssimo, mas de alguma forma entrar a fundo dentro de mim foi também minha salvação. Eu tinha então duas possibilidades. A primeira era a de me esconder de mim mesmo e a segunda era a de sair em busca dos meus olhos mágicos novamente. Eu não tive dúvidas, juntei o pouco de grana que ainda me restava no banco, dei uma geral na casa e recomendações para um vizinho continuar dando comida e água para um gato que vivia e ainda vive ali para fazer uma surf trip. A primeira internacional. O local escolhido? Costa Rica é claro! O filme de Bruce Brown, Endless Summer II, tinha me feito sonhar acordado por muito tempo para esquecê-lo e a expressão de felicidade de Pat O’Connel mandando ver em Playa Negra e Roca Bruja junto com Wingnut para mim já era o suficiente. 


(continua…)