Um Conto Natalino
Para Luizinho, nenhuma data era mais importante e significativa que o Natal. Muito mais do que seu aniversário ou o dia das crianças. Pois no Natal, quem entregava seu presente não eram seus pais ou familiares, mas, sim, o Papai Noel. E ele nunca ouviu reclamação sequer do bom velhinho sobre estar sem dinheiro, que a economia estava em baixa, que a tal globalização, que nunca entendeu bem o que era, enriquecia os ricos e empobrecia os mais desafortunados. “Eu sou um desafortunado?” Perguntava à sua mãe toda vez que ouvia aquilo do seu tio Arthur, entre um drinque e outro.
Mas quem era Papai Noel? Essa pergunta, Luizinho respondia sempre de prontidão, já mostrando desde cedo seu tino comercial para a diversão de seus tios, que passaram natais a fio ensinando-o todas aquelas palavras. “Papai Noel é um velhinho que iniciou uma fabriqueta de brinquedos há muito tempo atrás lá no Polo Norte e que quando a coisa apertou teve que contratar uns duendes a preço de banana pra ajudar ele!”
Agora, se tinha uma questão de que seus tios se esquivavam era quando ele perguntava como o Papai Noel conseguia entregar todos os presentes numa única noite. Ele sempre se intrigava com isso, mas ele logo esquecia, afinal, o importante era seu brinquedo chegar. Não um brinquedo qualquer, mas um que ele passava o ano inteiro sonhando, desejando, mas que sempre mudava de opinião no início de dezembro, quando os comerciais de televisão bombardeavam incessantemente sua imaginação.
Quando era menor, digo isso até uns dois anos atrás, o Natal sempre chegava de forma inesperada. “Hoje é Natal!” Dizia sua mãe para ver seu filho pular de alegria. Uma alegria contagiante, mágica. Então ele cresceu e aprendeu a contar os dias na escola. “Mãe, precisamos nos preparar, já está quase no Natal!” Costumava alertar em meados de novembro. Ele era um menino muito impaciente. No dia derradeiro, ele esperava ansiosamente pelo momento da entrega dos presentes como se não houvesse nada entre ele e seu mimo. Quase não conseguia comer e se pudesse, deixaria de respirar também. Uma vez sua avó o viu roxo, tremendo, perto da árvore de Natal e se assustou. “Menino, você está roxo!” E só então ele liberou o ar e se lembrou de respirar.
No entanto, havia Natais mais fartos que outros, mas aqui seus tios, meio sem jeito, falavam que talvez naquele ano ele não fora tão bonzinho. “Mas eu fui bonzinho!” Dizia Luizinho entre lágrimas mesmo sabendo que sua afirmação não era assim, digamos, tão verdadeira. Luizinho passava o ano inteiro fazendo travessuras, mas quando o Natal se aproximava, ele parava de aporrinhar sua irmã ou de fazer chacota das outras pessoas.
Já disse que o garoto era ansioso, não? Pois bem, de tão ansioso e insistente, para não dizer chato. No ano anterior, fora decidido que Luizinho não mais ficaria na sala no momento em que seus pais e tios tinham de apagar a luz e dar uma de David Copperfield colocando trinta presentes no recinto em questão de minutos. Tudo isso cantarolando músicas natalinas para esconder o barulho dos tropeços e dos móveis sendo arrastados de lá para cá. Mas após a entrega, se a entrega fosse bem feita e querida, o menino se acalmava e ia brincar feliz. E só então se lembrava de correr para a janela e olhar para fora na esperança que estivesse nevando.
Todo ano ele ajudava sua mãe a montar a árvore de Natal, mas seu intuito era o de sempre pedir para sua mãe escrever sua cartinha de Natal e para ser o primeiro a pô-la embaixo da árvore. No entanto, esse ano Luizinho resolveu fazer diferente. Afinal, ele já era grande, tinha se dedicado 1 ano inteiro a aprender a ler e a escrever, por isso, decidiu que ele mesmo escreveria para o Papai Noel. E mais, decidiu escrever e enviá-la por correio para que o bom velhinho tivesse tempo de confeccionar seu desejo. “Agora só preciso descobrir onde ele mora!” Teria dito.
O tempo passou, o Natal chegou e como todo ano, sua mãe seguiu o protocolo à risca ao levar ele, sua irmã e seu relutante pai para ver a linda decoração de Natal dos shoppings centers. Luizinho se transformava com todas aquelas luzes mil, com bolas coloridas espalhadas por todos os cantos e algodão, simbolizando a neve, para dar uma maior alusão ao Natal. As vitrines das lojas eram umas mais bonitas que as outras. Os olhos, por muitas vezes, não sabiam mais para onde olhar. Tinham umas que até eram robotizadas, com um Papai Noel mecânico acenando feliz para todos. Mas a vitrine que ele mais gostava era o da loja de brinquedos. Passava horas ali, se torturando e analisando cada possibilidade. ‘Será?’
Mas como todo passeio tem que terminar, aquele também tinha destino certo: um hall bem amplo no centro do shopping. Havia um rinque de patinação antes, mas os lojistas pensaram em coisa bem melhor para aquele Natal, mais rentável, diga-se de passagem. Construíram, sem se importar com gastos, parte da região do Polo Norte que abrigava a casa do Papai Noel. Aliás, a decoração fora caprichada naquela área. Havia neve e gelo por toda parte, e o ar condicionado era deixado bem frio naquela região do shopping para que as pessoas se sentissem realmente nas redondezas da casa do bom velhinho. Havia, também, felizes duendes de madeira espalhados por toda parte e renas improvisadas de cavalinhos de brinquedos, que, além de puxar o trenó fictício do Papai Noel, também serviam de montaria para toda a garotada.
“Vá pedir seu presente ao Papai Noel!” Disse sua mãe ao verem Papai Noel acenando sentado de sua cadeira com uma criança no colo. Uma fila enorme se formava e a irmã de Luizinho, menor que ele, não perdeu tempo em correr e se enfiar no meio da multidão.
“Ele não é o Papai Noel, ele é só um homem… e aqui também não é o Polo Norte!” Respondeu o sabido Luizinho.
Ele ficou ali de longe, observando a confusão enquanto sua mãe se entretinha com o presépio montado ali perto. Luizinho não entendia do por que as pessoas misturavam religião com Natal. ‘Não tem nada haver!’ Pensava ele ao lado de sua mãe, curioso sobre o presente que os Três Reis Magos vinham carregando em suas mãos.
“Luizinho, vá ver sua irmã e não desgrude os olhos dela!”
Luizinho foi, e foi com boa vontade, afinal o dia derradeiro era o dia seguinte e ele não poderia cometer um único deslize sequer, nem mesmo roubar na calada da noite os papais noéis de chocolates que sua mãe sempre pendurava na árvore de natal. Mas ao observar a multidão em fila, tentando falar com Papai Noel, seus olhos sequer se voltaram para sua irmã, que era convidada a se sentar no colo do bom velhinho para levar um dos leros mais sérios que já tivera em sua vida. Aconteceu que a neve que ele achou que fosse neve embaixo da cadeira do Papai Noel, não era neve, era uma montanha de cartas e essas cartas se espalhavam aos montes por todas as partes.
‘CARTAS!’ Luisinho suou frio como nunca havia feito em sua vida, seus olhos esbugalharam e sua cabeça doeu. ‘Minha carta!’ Nervoso e tentando por a culpa em alguém, Luisinho lembrou de que havia se esquecido de por a carta no correio e agora não havia mais tempo. Desesperado, correu para uma montanha de cartas qualquer para crer no que seus olhos viam. Umas mais magras, outras mais gorduchas… devia ter muitos brinquedos escritos ali, pensava sempre ao ver um envelope. Mas o que fazer? Ele não sabia, estava com medo de não ganhar nenhum presente aquele ano. Aliás, aquilo estava fora de cogitação, pois se perdesse aquela oportunidade, teria que esperar mais um ano para ganhar alguma coisa.
Correndo ele foi ao encontro da sua mãe. “Mãe! Me dá uma caneta?” A mãe estranhou a palidez do filho, mas procurou na sua bolsa e deu-lhe uma. “Você está bem? Onde está sua irmã?”
“Já venho!” Deu as costas e saiu correndo.
Ele estava cego, tremendo, com medo. Nem viu sua irmã dar um beijo no rosto do Papai Noel. Se tivesse visto, teria ganhado um pirulito também. Mas isso não importava, ele correu para aquela montanha de cartas com a caneta na mão. Ele nem sequer a testou antes para ver se estava funcionando, tinha que funcionar. Então ele mexeu e remexeu naquela montanha, suando frio, com medo de que alguém estivesse olhando, com medo de que aquele falso Papai Noel se levantasse da cadeira para perguntar o que estava acontecendo. Era agora ou nunca, sua única e última oportunidade. Luizinho foi metendo a mão e logo escolheu uma carta, uma daquelas gorduchas. Olhou para os lados, desconfiado, e rabiscou o nome da criança que havia escrito aquela carta para escrever o seu por cima, do jeito que deu. Nem sequer colocou-a no chão para escrever, apoiou no joelho mesmo e escreveu. Depois chafurdou sua carta no interior daquela montanha e deixou-a lá.
Ele olhou para os lados novamente e ninguém vira. O mundo saiu de suas costas, sorriu e carregou-o. Pronto! Agora era só esperar. Ele estava muito feliz, radiante. Não sabia o que tinha na carta, mas não importava, o importante era garantir o seu. Nem pensou na outra criança que poderia deixar de ganhar seu desejo.
E ao chegar perto de sua mãe para devolver a caneta, a mãe perguntou. “Onde você foi Luizinho? Estávamos te procurando por todos os cantos!”
Luizinho olhou para sua irmã e ela estava com uma cara de delatora. Ficou com medo. Será que ela vira? Mas aquela cara ela sempre tivera e como ninguém falou nada, ele retrucou.
“Sabia que eu te amo, mãe?!” Sorriu para ver sua mãe também sorrir e passar a mão na sua cabeça.
O mundo estava cor-de-rosa outra vez.