Categoria: Fragmentos de Garok

Trechos e cenas do universo de Garok, O Demônio das Trevas.

  • Marasmo Filosófico

    Marasmo Filosófico

    “Sabe, Felfecir…” Esparramado na grama, do lado de fora de sua choupana, o velho ancião alisava sua longa barba branca enquanto olhava para além das nuvens que se moviam e mudavam de forma preguiçosamente. “Será que ele estava certo? Será que estamos sós nessa imensidão?” Aguardava por uma resposta que sabia que não viria.

    “Mas então eu penso.” Continuou. “O que é ser só? Ser só e sentir solidão seriam a mesma coisa? Ser solitário ou sentir-se solitário? Veja só aquela nuvem passando por aquele pedacinho de céu azul. Será que ela se sente só enquanto suas irmãs se agrupam aqui desse lado? E você, meu ilustre amigo, sente-se só sabendo que é o único de sua espécie? Mesmo estando aqui comigo?” O velho ameaçou levantar, mas apenas se sentou para continuar sua divagação.

    “E aqueles pontinhos brancos no céu noturno… quando vejo eles daqui onde estou agora sempre me parecem tão juntinhos… será que eles sentem-se sós? E eu? Um velho tolo, sozinho em meio a essas montanhas, sinto-me só? Por vezes sinto-me mais solitário quando debato e argumento com meus pares… outros velhos tolos…” O velho ancião deu uma piscadela para Felfecir, mas não sem antes esboçar um sorriso escondido no meio de tanta barba.

    “Porém,” o velho fixou seu olhar nos de seu ouvinte. “porém,” o velho agitava seu dedo indicador como se fosse falar algo importante. “eles não me completam? E eu a eles? Não evoluímos nossos pensamentos quando pensamos? E não seria essa a resposta? Não estamos todos conectados a algo? Todos nós não nos completamos ou complementamos? Não fazemos todos nós, partes únicas, parte de um todo maior? Então, como se sentir só se somos um só?” O velho tolo deitou-se novamente enquanto continuava a alongar sua longa barba branca.

    (Velho Ancião)

  • Uma Mesa Com Cinco Anciões

    Uma Mesa Com Cinco Anciões

     

    Eram cinco em volta de uma mesa disforme. Um velho e barbudo, um velho de careca lustrosa, um velho e gordo, um velho magrinho e um velho de barba e cabelos longos. A mesa parecia que havia sido qualquer coisa antes de virar uma mesa. Parecia que a haviam posicionado da maneira correta, jogado uma toalha por cima e “Voilà!” Como teria dito um deles em sua língua. Já os cinco, a única semelhança entre eles era o fato de serem velhos, cabeças duras e gostarem de uma bela e acalorada proza.

    “Mas você não pode falar que somos apenas nós cinco os habitantes desse mundo.” O velho e gordo levantou-se da sua cadeira, coisa que jamais fazia, coisa que ele mesmo dizia.

    “E por que não?” O velho magrinho elevou a si e seu tom de voz. “Você vê mais alguém por aqui?”

    “Mas existem outros como nós! Já vimos antes.” O velho de careca lustrosa sacudia suas mãos involuntariamente.

    “Faz tempo que não os vejo e esse mesmo tempo já deve tê-los levado.” O velho magrinho não se dava por vencido.

    “Mas e fora do nosso mundo?” O velho de barba e cabelos longos estava pensativo, alheio àquela discussão.

    “O que você pressupõe quando diz nosso mundo?” O velho e barbudo puxou sua cadeira e sentou-se de frente para dar início a uma nova discussão.

    “Vocês não veem esses pontos brancos no céu noturno? Não seriam outros mundos brilhando?” O velho de barba e cabelos longos começava a explanar sua teoria. “Será que o nosso brilha assim também?”

    Os outros anciões se entreolharam e riram.

    “Se nosso mundo brilhasse não haveria noite!” O velho e gordo desmentiu a teoria sentando-se novamente.

    “Não é isso.” O velho de barba e cabelos longos ainda tentou se explicar. “Quero dizer que deva haver vida em outros locais, em mundos como esse.”

    “Pode ser que sim, mas também pode ser que não.” O velho magrinho se preparava para argumentar. “E se o universo for muito novo para ter tido tempo da vida nascer em outros lugares?”

    “Ou muito velho e toda a vida já se fora…” Complementou o velho e barbudo para ganhar a aprovação do velho magrinho. “restando apenas nós cinco…” Continuou para também buscar a aprovação do velho e gordo.

    “Vocês são velhos e tolos! Impossível conversar com vocês!” O velho de barba e cabelos longos se irritou.

    “Eu vou falar o que é tolice.” O velho magrinho não desperdiçava uma chance. “Tolice é um velho que constrói um casebre velho, caindo aos pedaços e no meio de um lago.”

    “Ei!” O velho de barba e cabelos longos indignou-se. “Dobre sua barba antes de falar do meu casebre, digo, da minha choupana!”

    “E ainda obriga seus visitantes a virem espremidos num barquinho.” O velho e barbudo lembrou bem.

    “Aquilo é um barquinho? Achei que fosse um pedaço de tronco oco e podre usado de barco…” O velho e gordo pôs-se a pensar.

    “Eu vim nadando…” O velho de careca lustrosa, que havia se ausentado, finalmente chegou na mesa com mais chá.

    “Oras carolas, mas que culpa tenho eu se marcamos aqui na nossa última prosa?” O velho de barba e cabelos longos se eximia da culpa.

    “Em nosso encontro centenário?!” O velho e barbudo coçou a cabeça.

    “No nosso último encontro eu ainda tinha cabelo…” O velho de careca lustrosa ainda tentava se colocar na conversa.

    “Você era o velho de cabelos longos e crescentes, não?” O velho e gordo perguntou.

    “Sim, era ele!” O velho magrinho respondeu na frente do velho de careca lustrosa. “Mas no nosso último encontro ele já não tinha mais cabelo, lembram-se? Até fizemos uma votação para mudar o nome dele.”

    “Sim, é verdade!” O velho e gordo sorriu ao relembrar o fato.

    “Eu preferia meu nome de antes…” O velho de careca lustrosa mostrou-se introspectivo.

    “Ora, vejam só o que vocês, velhos tolos, fizeram. Vocês vem aqui na minha choupana, que construí com muito esforço e a mantive intacta. Vocês escracham ela e depois zombam do nosso ilustríssimo amigo que tem uma das carecas mais invejadas do nosso mundo.” O velho de barba e cabelos longos ia parar por aí, mas como ninguém ousou contra argumentar, continuou. “E ainda discordam da minha sábia teoria dos mundos e ainda por cima vem me falar que somos somente cinco nesse mundo?”

    “Pera aí!” O velho e gordo levantou-se da cadeira novamente. “Somos só cinco mesmo!” Deu um murro na mesa com suas duas pesadas mãos. O chá que o velho de careca lustrosa havia trazido voou para cima caindo em barbas, carecas e cabelos desgrenhados.

    “Olha só o que você fez, seu velho tolo desajeitado.” O velho magrinho tentou virar a mesa, mas só conseguiu realmente quando o velho e barbudo o ajudou.

    “Vocês estão destruindo minha choupana.” O velho de barba e cabelos longos se desesperou.

    A confusão foi geral. Teve quem recolheu o chá esparramado no chão dentro de uma xícara para jogar no companheiro. Teve quem se aproveitou da distração do outro para dar uma leve empurrada com o pé e vê-lo cair no lago. Teve quem entrou com os pés sujos na choupana e voltou correndo gritando. Teve quem deu um tapa numa careca lustrosa e disse que fazia tempo que queria fazer aquilo. Teve quem se colocou de pé em cima de sua cadeira e começou a dar lições de moral e bons costumes.

    Assim, como o chá, aqueles velhos eram bons em esparramar suas palavras. E assim o fizeram até que uma melodia suave adentrou o ambiente.

    O velho e gordo arrumou sua cadeira para sentar-se novamente, mas não sem antes ajudar o velho magrinho a reposicionar a mesa. “Que bela melodia…” ousou dizer alguma coisa.

    “Não falei que faltava alguém…” O velho magrinho sorriu.

    “O sexto chegou…”

    A discussão cessou. Os cinco, sentados e bem comportados à mesa, bebericaram o pouco de chá que ainda havia restado e que o velho de careca lustrosa fez o favor de buscar, cachimbaram e apreciaram cada um sua própria solidão rodeada pela solidão dos outros velhos “tolos”.

    (Velho Ancião)

  • Amigos Para Sempre

    Amigos Para Sempre

    “Agora te peguei!” Cantou vitória antes de realmente conseguir colocar o inseto saltitante dentro do pote.

    Frustrado, ainda tentou mais uma, duas, três, quatro vezes. Só não tentou mais pois não tinha mais braços. Por fim, Naj se contentou e sentou-se observando a pequena criaturinha saltitar por cima da superfície de um lago de águas límpidas próximo da sua vila. “Como será que ela consegue fazer isso?” Imaginava-se afundando assim que colocasse seus pés no que, na verdade, era conhecido por Baía Silenciosa.

    Com o pote vazio em suas mãos, Naj retornava para sua casa quando escutou alguns Grimmies de sua mesma idade cochichando.

    “Veja! É ele!” Apontou o primeiro.

    “Quem?” O segundo quis saber mais.

    “O que gosta de aventuras!” Respondeu o terceiro.

    “O que é aventuras (sic)?” O primeiro e o terceiro relevavam as perguntas do segundo por este ser menor.

    “Quem gosta de sair por aí e não quer nada com nada.” Arriscou o primeiro com as palavras de sua própria mãe.

    “Ah!” O segundo fez que entendeu.

    “Vocês viram que os braços dele debaixo são mais curtos que os de cima?” Instigou o terceiro.

    “Nem tinha notado, mas você tem razão!” O primeiro apertou seus olhos tendo medir os braços de Naj mentalmente.

    “E os meus? São mais curtos?” O segundo esticou seus quatro braços o mais que podia e prendeu a respiração aguardando a resposta.

    Naj parou e fulminou os três Grimmies que falavam dele. Porém, ao invés de sentirem-se envergonhados, os três se levantaram e começaram a fazer caretas e chacotas. À Naj não sobrou outra opção senão se virar e rumar para a vila vizinha. ‘Se não me querem aqui, pois bem, vou me embora para sempre’. Lamentava-se no alto de sua maturidade.

    Entre a vila de Naj e a vila vizinha havia um enorme lago que se estreitava em uma parte. De um lado havia o Grande Lago e do outro a Baía Silenciosa. Nesse estreito havia uma passarela formada por madeiras e presa por cipós. Geralmente, antes de iniciar a travessia, olhava-se para ver se não tinha ninguém vindo. Se houvesse alguém, era de praxe aguardar antes de ir. Naj, cabisbaixo, só reparou que havia esquecido de olhar quando trombou com outro Grimmy.

    “Olhe por onde anda!” Resmungou Naj.

    “Já estava atravessando, você deveria ter esperado sua vez como todo mundo faz!” Ouviu o retruco.

    “Eu conheço você!” Naj o encarou. Porém, o outro Grimmy nem se manifestou. “Você passa pela minha vila todo dia.” Confrontou-o.

    “Não sabia que aquela vila era sua. Acabadinha ela, não?” Satisfez-se ao ver que Naj caíra em sua zombaria.

    “Sabe de uma coisa?” Naj agora queria desmoralizar o outro. “Seus braços debaixo são mais curtos que os de cima!” Ergueu sua cabeça para tentar ficar mais alto que seu desafeto.

    “Os meus?! Sabe que nunca tinha reparado…” O Grimmy se olhou de todas as maneiras para ver se aquela informação procedia e vendo que era mentira enfrentou-o com seus próprios argumentos. “E você? Não tem defeitos?”

    Naj colocou seus braços para trás. Ele não esperava por essa. Ele esperava por algum xingamento, por um empurrão, por outras frases sem sentido a fim de inferiorizá-lo, mas ele não esperava por um questionamento que o deixasse sem palavras, que o fizesse olhar para si.

    “Não tenho!” Afinal, ele não podia deixar de vencer aquela disputa verbal.

    “Nem unzinho? Saiba que todos temos defeitos.”

    “Eu tenho um sim!” Vociferou enfurecido. “Um único! Sou um aventureiro!” Disse achando que o outro Grimmy cairia espantado no chão, como se aquilo fosse um sinônimo de marginal ou desajustado. No entanto, apenas ouviu risos do outro lado. “Você duvida?” Enfureceu-se ainda mais. E dizendo isso, se colocou de pé no corrimão de proteção e se jogou passarela abaixo.

    A passarela nem era tão alta, mas Naj gritou com uma intensidade que os Grimmies das duas vilas devem ter escutado.

    “Ploffff Xuáaaa!” Naj escutou assim que voltou à superfície. Era o outro Grimmy que havia se jogado atrás dele.

    “Uau! Você realmente é um aventureiro, me ensina?”

    “Como vou te ensinar? Nem sei quem você é.”

    “Meu nome é Sum e sou da outra vila.”

    “O meu é Naj.” Apresentou-se esticando uma de suas mãos para apertar a de Sum enquanto as outras três o mantinham boiando. “Por que você passa todo dia pela minha vila?”

    (*Por que será que as crianças tem que crescer e se esquecer de toda sua sabedoria?)

    “Eu sempre vou até um lugar, mas não tenho coragem de entrar. E para chegar lá preciso atravessar sua vila. Quer vir comigo?”

    “Eu?!” Naj olhou assustado.

    “Sim! Você pode me ensinar a ser um aventureiro e podemos desbravar o lugar, o que você acha?”

    “Não sei se é uma boa ideia…” Naj não sabia como dizer que ele não era tão aventureiro assim. Impulsivo com certeza.

    “Vamos, vai ser divertido!”

    Naj não conseguiu dizer não, ainda mais porque nunca havia tido outro que quisesse participar de uma aventura com ele.

    Os dois então nadaram até a margem da vila de Naj, que queria evitar passar pelo mesmo local que havia sofrido chacotas mais cedo. Mas Sum não o deixou. “Por aí não, você está indo para o local errado, é por aqui. Venha, vamos logo antes que escureça!”

    E ao passarem pelos Grimmies zombadores, escutaram. “Vejam, é o de braços curtos aventureiros junto com o sem casa que vaga por aí!”

    Sum e Naj se olharam, riram e correram.

    Um Grimmy de barbas brancas que assistiu a toda a cena também sorriu. ‘Um amigo para toda a vida, não é isso o que importa?’ Cachimbava olhando a fumaça tomar a forma de sua imaginação.

    (Naj & Sum)

  • Mergulho no Lago Escuro

    Mergulho no Lago Escuro

    Num mundo envolto pela eterna escuridão, onde as únicas tonalidades percebidas eram as cinzas e negras, havia algo que se destacava no meio de tudo aquilo e não era por ser mais brilhante. Mas justamente por ser ainda mais negro que a própria ausência de luz.

    ‘Não queria…’ Garok caminhava lentamente, escondido, por umas árvores retorcidas em meio ao líquido viscoso que inundava aquele pântano. ‘Mas sei que ele está próximo… e cansado do jeito que estou, não conseguiria enfrentá-lo. Hoje me contentarei em escapar pelo Lago Escuro.’

    Aquele que sempre se via como caçador, temia por sua vida. Ele sabia dos perigos que se escondiam para aqueles que se aventuravam naqueles lagos. Garok estava reticente. Porém, sem escolhas.

    Num mundo silencioso, quem ousava perturbar o ambiente só poderia estar fora de sua sanidade mental. ‘… ou buscando a morte…’ Garok estremeceu ao ouví-lo. Até mesmo as árvores pareceram se contorcer ainda mais, prevendo o que estava por vir. ‘Ainda não…’ O sangue de Garok fervia. ‘mas logo… muito em breve…’ esboçou um sorriso pesado antes de imergir silenciosamente na escuridão do lago.

    Vulnerável, Garok sabia que precisava nadar da forma mais imperceptível possível se quisesse chegar à outra margem. Braçada a braçada, perturbando o mínimo a superfície daquela matéria líquida. Ele deixava que a fraca correnteza fizesse o trabalho. Seu objetivo era o de permanecer da forma mais imóvel possível e se fazer parecer um tronco podre de uma daquelas árvores retorcidas. Se alguém o visse naquela situação, certamente falaria que suas energias já estivessem exauridas. Porém, não é bem assim. Nadar daquela forma exigia um esforço físico e mental descomunal. Garok sabia mais do que ninguém que se tentasse se apressar poderia acordar alguma criatura das profundezas e ele não queria isso.

    ‘Mais um pouco…’ Garok aproximava-se da margem, já aliviado, quando sentiu suas pernas serem envolvidas por algo que pareciam tentáculos e ser puxado violentamente para o fundo daquele lago sombrio. Não deu tempo nem de pegar fôlego, dar uma última respirada antes de submergir.

    Por puro instinto, Garok cravou suas garras nos tentáculos que o envolviam e se virou. ‘Não consigo ver, escutar ou farejar aqui embaixo, mas se for para morrer que seja face a face.’

    Imóvel, parecia já ter desistido. Seu corpo, arqueado para trás, deixava que a criatura continuasse a puxá-lo. Ele não dava sinal algum de resistência. Mas a velocidade com que era puxado foi diminuindo e Garok foi soltando suas garras dos tentáculos como se já estivesse sem ar. Se tivesse sorte, chegaria já afogado na boca da criatura, assim não precisaria sentir os dentes dela perfurando e atravessando seu corpo. Mas sorte é um fator que não pode se contar muito naquele mundo.

    A velocidade com que se movia cessou por uma fração de um instante e Garok, mesmo sem conseguir ver nada, entendeu que se encontrava dentro da boca da criatura. Tão rápido e furioso foi o movimento da criatura em fechar a boca, também foi o movimento de Garok em se colocar ereto e segurar a mandíbula superior da criatura acima da sua cabeça e fazer força com seus pés para que a mandíbula inferior não fosse de encontro com a superior. Garok estava completamente no interior da boca da criatura e se pudesse ver talvez a tivesse comparado com uma caverna cheia de dentes, sendo alguns do seu próprio tamanho.

    Ele segurou e usou muito mais força do que imaginava ter para manter a boca da criatura aberta. Por sua vez, percebendo que seu alimento havia entrado numa posição errada na sua boca, a criatura resolveu parar de pressionar para abrir suas mandíbulas e então fazer com que elas finalmente se encontrassem.

    Esse fora o momento que Garok aguardava. Assim que a criatura afrouxou um pouco o aperto, ele se desvencilhou dos tentáculos e se impulsionou para fora da bocarra, que fechou estrondosamente.

    Muitos teriam nadado o mais rápido que pudessem em direção a margem, torcendo para que quando a criatura percebesse que não havia nada além de água em sua boca, já estivessem bem longe de seu alcance. Mas Garok não era como muitos, ele havia planejado uma surpresa para aquela afronta. Ele se deixou flutuar para a extremidade superior da face da criatura e, com um único golpe, rasgar seu único e grande olho escuro.

    Garok voltou à superfície tranquilamente, feliz, sabia que a criatura não o perseguiria mais. Não esta. Ele sabia que uma criatura ferida tinha poucas chances de sobrevivência.

    Agora na margem oposta da qual entrara, Garok se voltou e apertou seus olhos para tentar fazer com que sua visão atravessasse o lago. O que ele não sabia é que mesmo se houvessem três sóis iluminando aquele mundo, mesmo assim ele não conseguiria enxergar a outra margem. ‘Está tudo muito silencioso…’ Ele sabia que o demônio estava lá… seu demônio.

    (Garok)

  • Dois Sobreviventes

    Dois Sobreviventes

    Sua respiração estava mais ofegante que o normal. Seu pelos, Eriçados. Mantinha-se atento. Se não fosse por sua pelagem, já teria sentido o frio implacável daquele mundo esquecido até mesmo pela ardência da radiação de qualquer estrela que fosse.

    Já se passara alguns dias desde que Garok se escondera entre os espessos galhos de uma árvore sem folhagem. Porém, esse não era o problema. Assim como ele, as criaturas daquele mundo eram desprovidas de uma visão privilegiada. No Mundo das Trevas, esconder não significa apenas deixar de estar visível, mas mais importante, manter-se imóvel, não fazer ruídos e posicionar-se sempre contra o vento. Garok vinha desempenhando bem as duas primeiras definições, mas ficar contra o vento é relativo quando não se sabe por onde vem a criatura.

    ‘Quem ou o que será que vem vindo?’ Indagava-se mentalmente entre um momento e outro de desatenção. Seus olhos, cerrados, deixavam que suas orelhas pontudas se movimentassem livremente por todas as direções a fim de perceber o ataque. ‘Serei eu ou ela a atacar? Quem é a presa, afinal?’

    De repente, suas orelhas apontaram para a mesma direção e seus olhos se abriram. ‘O que quer que seja, acabou de se denunciar. Ainda não faço ideia do que ou quem seja, mas já fico mais tranquilo por saber que não é ele. Aquele desgraçado. Se fosse, já estaria morto.’

    Com um movimento suave e veloz, Garok alcançou o o galho mais alto da árvore e se pôs no alto de sua copa. ‘Daqui de cima será mais fácil atacar ou me defender.’ Esboçou um estranho sorriso, de alívio talvez. ‘Quando matá-lo não temerei a mais ninguém.’ Sempre tentava se convencer quando seu grande medo invadia seus pensamentos.

    Subitamente, Garok se revelou num pulo e avançou sobre a criatura que o havia obrigado a se esconder. “Você?!” Garok riu, controlando suas garras para não dilacerá-la. A criatura era infinitamente inferior tanto na parte física quanto na agressividade. A única semelhança entre eles era o fato de estarem tentando sobreviver. Os dois haviam permanecido escondidos um do outro ao se perceberem e travaram uma guerra psicológica. Porém, a criatura cometera um grave erro ao sentir-se segura e sair de seu esconderijo antes que Garok o tivesse feito.

    Segurando-a pelo pescoço, Garok a ergueu e a aproximou de sua face para fulminar sua vontade de viver com seus olhos. “Você não valeu todo meu esforço. Não saciará minha fome e muito menos meu ego. Mas posso usar você para caçar uma presa maior.” E dizendo isso, Garok sufocou a criatura a ponto dela não conseguir mais emitir um ruído sequer. Suas pequenas garras ainda insistiam e suplicavam para que ele a deixasse ir, mas seus olhos fechados, contorcidos de dor, já davam sinais de desistência. Garok apenas sorriu mais uma vez.

    Num mundo de sobreviventes, não vence o mais forte, mas vive aquele que melhor utiliza seus instintos e se adapta ao seu meio.

    (Garok)

  • Monólogo

    Monólogo

    “Interessante, muito interessante!” Um ser encapuzado tinha seus olhos fixos numa água turva represada. “Eles pensam que são evoluídos, mas quão atrasados são. Nem se dão conta disso. Se escondem uns dos outros. Tentam pelo menos. Aparentam ser de uma forma, mas tem outra por dentro.” Magro como seu cajado, ria alto, sem medo que alguém pudesse ouvi-lo.

    “Vocês podem tentar se esconder uns dos outros.” Apontou seu punho ossudo para a água turva. “Mas não podem se esconder do meu poço que tudo vê. Posso penetrar por seus olhos… ver suas almas… e encontrar o vazio. Sim! Vejo o vazio de suas vidas atarefadas insignificantes. Querem mostrar poder, mas não fazem a mínima ideia do que é o real poder. Querem ser melhor que os outros, mas não o são. Fracos fisicamente, mais fracos mentalmente. Magnífico! Diria que estão prontos. Ah sim, como estão prontos. E como se dividem… apesar de viverem em grupos. Os grupos se atacam e os desprezíveis também se atacam individualmente. Eles tentam se mostrar cordiais, mas são cruéis uns com os outros e com o lugar onde vivem. Como se existisse outro lugar para viverem suas vidas medíocres.”

    De repente, parou. O ser ergueu o máximo que pôde suas costas curvadas. “Mas será que… será? Será que ela deu mais um passo?” Olhava para a ponta reluzente de seu cajado. “Ela teria me falado, não? Mas isso responde a muitas questões. Sim! Talvez seja isso. Talvez ela queira me mostrar que já estamos prontos. Que é o momento de retirarmos nosso capuz e nos mostrar.”

    O ser encapuzado descobriu sua face e se olhou na água turva. Era tão enegrecida que mal conseguiu olhar seu próprio contorno. ‘Melhor assim.’ Teria dito se conseguisse se olhar através do reflexo dos seus olhos.

    (Orskull)