Categoria: Contos

Contos de fantasia, mistério e horror.

  • Insano Paulo

    Insano Paulo

    Jair não sabia o que fazia ali, ou melhor, como o haviam convencido disso. Dias antes, após um surto mental daqueles que só quem vive numa megalópole como São Paulo sabe como é, mas nem sempre de onde vem, que ele resolveu seguir um conselho de um amigo de trabalho. “Jair, você está precisando de ajuda profissional!” Dizia ele.

    Já dentro do consultório, vendo que Jair agarrava suas calças com suas trêmulas e suadas mãos, o doutor aproveitou para criar um clima de suspense. “Sabe o que é Jair! Você tem uma variação de uma síndrome não muito rara nos dias de hoje… mas não disse que sua síndrome não é rara hein, veja bem?!” O doutor ajeitou os espessos óculos.

    ‘Mas o que é doutor? Vamos, fale logo!’ Jair disse em seu íntimo, já que a danada da ansiedade segurou sua língua para bater seus dentes.

    “Você já ouviu falar na Síndrome do Pânico, não?”

    Jair fez que sim com a cabeça.

    “Pois bem,” O doutor prosseguiu. “você tem a Síndrome do Homem São.”

    “Síndrome do Homem São?” Jair repetiu franzindo a testa. “Mas que diabos é isso?”

    “Você é muito são para essa cidade?”

    “São?! São é você!” Jair retrucou indignado meio sem saber como dizer.

    “Muito bem Jair, vou tentar me explicar melhor. Todos os seres vivos, incluindo nós, é claro, tendem a se adaptar ao seu meio. Seja de um jeito, seja de outro. Logo, se você é são e vive numa cidade de loucos como São Paulo, quem tem problema aqui e precisa de tratamento não são os outros, mas sim você.”

    Naquele instante o mundinho de Jair desabou, afinal, ninguém ainda havia formado sua opinião sobre o assunto para ele rebater aquela afronta a altura. Seus olhos estavam longe, vencidos. O doutor, ao contrário, apoiado com seus dois cotovelos sobre a mesa batia as pontas dos dedos.

    “Mas e então, Doutor? O que eu faço? Isso tem cura?” Jair voltou do transe e olhou para seu salvador, dando-lhe uma prescrição médica e esboçando um leve e sádico sorriso.

    “Vai mais devagar, por favor!” Jair implorava momentos depois na garupa de uma moto.

    “Aí chefia, já não te falei pro senhor que tudo o que você tem que fazer é deixar essa tua boca escancarada e gritar o quanto quiser?! A magrela é minha, quem tá dirigindo ela sou eu e não to aqui pra ouvir ninguém dizer como tenho que fazer meu serviço! Tu nem meu chefe é?!” Dizia o motoboy costurando Deus, seu chefe e o mundo na Marginal Pinheiros em pleno rush de final de tarde.

    “Você não sabe que morrem dois motoboys por dia em São Paulo?” Jair tentou um último apelo.

    “Morrem dois e chegam mais mil!” O motoboy se divertia. “Além disso, não sou motoboy, sou mototaxista!”

    A viagem foi curta para desespero de Jair, mas assim que avistou o Estádio Cícero Pompeu de Toledo ele deu graças aos céus, pois pensou seriamente que seu destino final fosse alguns metros antes, dentro de um hospital que tem o nome de um famoso físico. Jair só foi se recompor do susto numa barraquinha Mimi em frente ao estádio. “Água aqui não tem não doutor, mas te faço duas biritas pelo preço de uma! É tiro e queda!” Disse o barman de Paraisópoles colocando o pequeno copo em cima do balcão improvisado.

    Jair aceitou a oferta e uma outra logo depois quando lhe ofereceram uma camisa do Corinthians. Ele nunca havia torcido por time algum, mas como o jogo era entre Corinthians e São Paulo acabou optando pelo primeiro. O jogo foi muito bom, diga-se de passagem, pena que Jair não viu, pois foi barrado na catraca depois de ter comprado o ingresso com um cambista duvidoso. Mas se ele não viu o jogo, tampouco viu o arrastão que fizeram na saída do estádio depois da pelada.

    Talvez por isso não tenha se desanimado, pois naquela mesma semana Jair se matriculou numa academia de ginástica. Peito, pernas, braços, costas, abdominal. ‘Mas que chatice!’ Não cansava de se comparar a um rato de laboratório disputando força com cavalos. No entanto, até que aquilo fez bem a Jair, pois, resolveu aproveitar uma noite enluarada numa baladinha da Vila Madalena. Cortou a cidade e o trânsito inteiro por baixo e na falta de gosto musical, optou pela casa mais movimentada. ‘Cheia, barulhenta e mal cheirosa!’ Pensou assim que entrou, mas rapidamente mudou de idéia ao ver os belos pares de saia que iam e vinham. Dessa vez Jair nem pensou em pedir água e foi direto para a birita.

    Com dor de cabeça e diante de um feriado prolongado devido ao aniversário da cidade, Jair resolveu fazer algo que não fazia há muito tempo, antes, porém, precisava pagar uma conta. Achou que seria rápido, mas a fila acenava o contrário já da porta do banco. ‘Caramba!’ Se angustiava. ‘Sol brilhando, a praia logo ali… e eu aqui!’. No entanto, ele não se intimidou, muito pelo contrário, seus olhos faiscaram. E apontando para o final da fila berrou para quem quisesse ouvi-lo.

    “Aquele senhor ali está furando fila!”

    Um alvoroço se formou dentro do banco e enquanto todos se cotovelavam para ver o infrator, Jair, de fininho, saiu de onde estava e foi andando de costas até o mais próximo que conseguiu chegar do balcão de atendimento. Quando todos, frustrados, começaram a se virar de frente para o balcão novamente, ele se infiltrou na fila como num passe de mágica. “Quanta barbaridade!” Ainda comentou com uma senhora às suas costas.

    Jair saiu do banco se sentindo vivo, livre, mas logo o congestionamento na Avenida dos Bandeirantes, a lentidão no acesso para a Rodovia dos Imigrantes, a praça de pedágio de R$20,00 e a serra parada o fizeram mudar de idéia rapidamente. Logo aqueles pensamentos poluídos esvaíram-se de sua mente ao ver as belas luzes da cidade de Santos. ‘Como a cidade cresceu…’ deslumbrou-se.

    Meses depois, Jair decidira que já era tempo de enfrentar o seu temor. A causa do efeito. Tocou duas vezes a campainha da casa de sua irmã. O barulho dos passos correndo pela sala o fez estremecer, mas ele segurou firme a barra.

    “Tio!” Seus três sobrinhos endiabrados o aguardavam.

    “Estão prontos?” Os três correram para dentro do carro.

    E lá de cima de um brinquedo chamado Elevador, com uma cara tão apavorada quanto a dos seus sobrinhos, Jair se segurava com todas as suas forças para não cair antes do carrinho. Momentos antes, o monitor do brinquedo falou num tom vil.

    “Peço a todos muita atenção e caso alguém desista no meio do caminho, levantem seus dois braços, cruzem os punhos na altura da testa e eu prometo descer vocês o mais rápido possível!”

    Foi ali, naquele parque de diversões que fica na Rodovia dos Bandeirantes, onde todos os atendentes tem de forçar um sotaque engraçado para fingirem que são de outro país, que o tal do doutor, que há muito não o via, o viu pela última vez. E ao notar a expressão de angústia de Jair, lembrou de sua prescrição médica e riu consigo mesmo.

    “Ah! A insanidade! Como seríamos felizes sem ela?”

  • Esperança Recôndita

    Esperança Recôndita

    Enfim a liberdade! Como ela gostava de estar livre por aí, sair de sua clausura e seguir para casa. A sua casa! Será que seus irmãos também estariam por lá? Bom, isso pouco importava para ela, se é que alguma vez importou. O que ela queria mesmo era percorrer por todas aquelas ruas atarefadas, se esticar um pouco e viver. Ela não se importava com as multidões, tampouco desejava se juntar a elas. Para ela, ser uma mera expectadora já bastava. Afinal, ela também era uma cidadã e merecia ser tratada com dignidade.

    Por se sentir como parte daquele todo, resolvera deixar seus instintos aflorarem no verde que cobria o topo dos arranha-céus. Estes, que se antes pareciam engolir as cidades, hoje se harmonizavam com as demais obras divinas, como se tivessem sido desenhadas pelo próprio Criador. Era verdade que os telhados de outrora contribuíam para o aquecimento do mundo, no entanto, o mesmo não ocorria naquela cidade, pois os telhados gramados ajudavam a suavizar o calor e melhorar o frescor dos finais de tarde.

    Depois de rabiscar com os pés a terra que produzia nutrientes para a grama se desenvolver, ela retomou seu percurso, mas não sem antes se admirar num daqueles vidros que cobriam os edifícios. Ao ver sua face refletida, mal teve tempo de recordar que há pouco estava do outro lado, observando o contraste da monotonia hipnótica das poucas nuvens que cobriam o céu com o andar trombado dos transeuntes, sempre aflitos, sempre com pressa. Mal se recordou que alguém entrou em seu recinto e lhe entregando um bilhete a pôs para fora, para a liberdade. Muito agradecida ela ficou, mas pouco demonstrou.

    Algo em que ela nunca havia reparado fora na utilidade daqueles arranha-céus envidraçados. Os vidros não serviam somente para a estética, para embelezar a arquitetura moderna, os vidros também tinham outra utilidade, eles captavam a pouca luz solar que adentrava pela atmosfera terrestre e a transformava em energia. Como se os edifícios também tivessem vida e aquele fosse seu alimento.

    Pouco abaixo, passando pelas ruas incrivelmente limpas, ela se deteve num daqueles locais onde informações são vendidas e a comida é farta. Juntou-se a dois homens distintos, que discutiam em meio a imagens holográficas coisas que não entendia. “Antigamente se usava um substrato das árvores para fabricar um material chamado papel. Nele, eles imprimiam tinta, juntavam algumas folhas e propagavam as últimas notícias do mundo.” Dizia um deles ao outro, boquiaberto, que tentava imaginar a equação insolúvel de quantidade de lixo produzido e matéria prima exaurida.

    Realmente, lixo era uma coisa que não se via naquela cidade. O que era descartado não virava lixo, virava resíduo e esse resíduo era separado do jeito que seus avôs haviam ensinado a seus pais. Todo ele era levado para locais específicos nas calçadas, onde dutos muito bem sinalizados percorriam todo o subterrâneo da cidade até chegarem a uma central recicladora. O cidadão tinha apenas que abrir o duto correspondente ao resíduo, jogar o que seria descartado gargalo adentro e deixar que o ciclo se fechasse.

    Um pouco cansada e vendo que o dia ameaçava uma despedida, resolveu se apressar passando rápida e invisível por todo o caminho que cortava a cidade para chegar ao local que os abastecia. Plantações de sumir de vista formavam um anel verde ao redor da cidade. E de cima de uma das poucas árvores que não os agraciavam com frutos, ela olhou para o espetacular perfeccionismo das máquinas, que mantinham incansavelmente tudo aquilo vivo. Nenhuma pessoa colocava as mãos nas plantações, tudo era feito por robôs bem programados. A irrigação vinha por baixo. Enormes receptáculos de água permaneciam abaixo de toda a cidade. Eles eram abastecidos pela água da chuva, que precisava ser tratada por ser considerada ácida demais, e por poços muito profundos, que transpassavam as rochas sãs que a poluição de outros tempos não conseguiu se infiltrar. Não havia rios atravessando a cidade, mas pontos de água foram equilibradamente colocados. A água sempre fora o elemental mais importante para a vida e por isso a necessidade de sempre tê-la por perto.

    Aquele local era tão bom e tão relaxante, que ela resolveu se recostar e passar uma última noite agradável ao relento. Já no dia seguinte, após se fartar de frutos pela manhã, chegou ao seu destino. Quem será que a receberia? Nem ao menos essa pergunta ela se fez durante todo o percurso. No entanto, com lágrimas nos olhos, um homem a pegou delicadamente em suas mãos e a abraçou. Ela não retribuiu o abraço, mas pode sentir todo o seu afeto. Ela se calou e cerrou os olhos por uns instantes para apreciar melhor aquele momento. Como era bom estar em casa de novo. Só então o homem pegou o bilhete, leu-o e, após uns instantes, beijou sua face. Com todo o cuidado do mundo ele a pôs num recipiente a vácuo e lançou-a na atmosfera.

    Voando para bem longe da redoma de vidro que recobria toda a cidade e que a protegia dos raios nocivos do Sol. Fazendo o papel de uma das camadas atmosféricas que fora destruída há muito. Ela batia suas asas, sentindo-se totalmente liberta, avistando, sem entender, todos aqueles inúmeros cata-ventos e painéis solares que se somavam ao abastecimento de energia de toda aquela cidade. Outro homem, que a tudo observava, quebrou o silêncio.

    “Você sabia que há mil anos os pombos eram considerados sujos?”

    Ao que o outro, vendo-a partir e a esperança retornar, sorriu.

  • Um Conto Natalino

    Um Conto Natalino

    Para Luizinho, nenhuma data era mais importante e significativa que o Natal. Muito mais do que seu aniversário ou o dia das crianças. Pois no Natal, quem entregava seu presente não eram seus pais ou familiares, mas, sim, o Papai Noel. E ele nunca ouviu reclamação sequer do bom velhinho sobre estar sem dinheiro, que a economia estava em baixa, que a tal globalização, que nunca entendeu bem o que era, enriquecia os ricos e empobrecia os mais desafortunados. “Eu sou um desafortunado?” Perguntava à sua mãe toda vez que ouvia aquilo do seu tio Arthur, entre um drinque e outro.

    Mas quem era Papai Noel? Essa pergunta, Luizinho respondia sempre de prontidão, já mostrando desde cedo seu tino comercial para a diversão de seus tios, que passaram natais a fio ensinando-o todas aquelas palavras. “Papai Noel é um velhinho que iniciou uma fabriqueta de brinquedos há muito tempo atrás lá no Polo Norte e que quando a coisa apertou teve que contratar uns duendes a preço de banana pra ajudar ele!”

    Agora, se tinha uma questão de que seus tios se esquivavam era quando ele perguntava como o Papai Noel conseguia entregar todos os presentes numa única noite. Ele sempre se intrigava com isso, mas ele logo esquecia, afinal, o importante era seu brinquedo chegar. Não um brinquedo qualquer, mas um que ele passava o ano inteiro sonhando, desejando, mas que sempre mudava de opinião no início de dezembro, quando os comerciais de televisão bombardeavam incessantemente sua imaginação.

    Quando era menor, digo isso até uns dois anos atrás, o Natal sempre chegava de forma inesperada. “Hoje é Natal!” Dizia sua mãe para ver seu filho pular de alegria. Uma alegria contagiante, mágica. Então ele cresceu e aprendeu a contar os dias na escola. “Mãe, precisamos nos preparar, já está quase no Natal!” Costumava alertar em meados de novembro. Ele era um menino muito impaciente. No dia derradeiro, ele esperava ansiosamente pelo momento da entrega dos presentes como se não houvesse nada entre ele e seu mimo. Quase não conseguia comer e se pudesse, deixaria de respirar também. Uma vez sua avó o viu roxo, tremendo, perto da árvore de Natal e se assustou. “Menino, você está roxo!” E só então ele liberou o ar e se lembrou de respirar.

    No entanto, havia Natais mais fartos que outros, mas aqui seus tios, meio sem jeito, falavam que talvez naquele ano ele não fora tão bonzinho. “Mas eu fui bonzinho!” Dizia Luizinho entre lágrimas mesmo sabendo que sua afirmação não era assim, digamos, tão verdadeira. Luizinho passava o ano inteiro fazendo travessuras, mas quando o Natal se aproximava, ele parava de aporrinhar sua irmã ou de fazer chacota das outras pessoas.

    Já disse que o garoto era ansioso, não? Pois bem, de tão ansioso e insistente, para não dizer chato. No ano anterior, fora decidido que Luizinho não mais ficaria na sala no momento em que seus pais e tios tinham de apagar a luz e dar uma de David Copperfield colocando trinta presentes no recinto em questão de minutos. Tudo isso cantarolando músicas natalinas para esconder o barulho dos tropeços e dos móveis sendo arrastados de lá para cá. Mas após a entrega, se a entrega fosse bem feita e querida, o menino se acalmava e ia brincar feliz. E só então se lembrava de correr para a janela e olhar para fora na esperança que estivesse nevando.

    Todo ano ele ajudava sua mãe a montar a árvore de Natal, mas seu intuito era o de sempre pedir para sua mãe escrever sua cartinha de Natal e para ser o primeiro a pô-la embaixo da árvore. No entanto, esse ano Luizinho resolveu fazer diferente. Afinal, ele já era grande, tinha se dedicado 1 ano inteiro a aprender a ler e a escrever, por isso, decidiu que ele mesmo escreveria para o Papai Noel. E mais, decidiu escrever e enviá-la por correio para que o bom velhinho tivesse tempo de confeccionar seu desejo. “Agora só preciso descobrir onde ele mora!” Teria dito.

    O tempo passou, o Natal chegou e como todo ano, sua mãe seguiu o protocolo à risca ao levar ele, sua irmã e seu relutante pai para ver a linda decoração de Natal dos shoppings centers. Luizinho se transformava com todas aquelas luzes mil, com bolas coloridas espalhadas por todos os cantos e algodão, simbolizando a neve, para dar uma maior alusão ao Natal. As vitrines das lojas eram umas mais bonitas que as outras. Os olhos, por muitas vezes, não sabiam mais para onde olhar. Tinham umas que até eram robotizadas, com um Papai Noel mecânico acenando feliz para todos. Mas a vitrine que ele mais gostava era o da loja de brinquedos. Passava horas ali, se torturando e analisando cada possibilidade. ‘Será?’

    Mas como todo passeio tem que terminar, aquele também tinha destino certo: um hall bem amplo no centro do shopping. Havia um rinque de patinação antes, mas os lojistas pensaram em coisa bem melhor para aquele Natal, mais rentável, diga-se de passagem. Construíram, sem se importar com gastos, parte da região do Polo Norte que abrigava a casa do Papai Noel. Aliás, a decoração fora caprichada naquela área. Havia neve e gelo por toda parte, e o ar condicionado era deixado bem frio naquela região do shopping para que as pessoas se sentissem realmente nas redondezas da casa do bom velhinho. Havia, também, felizes duendes de madeira espalhados por toda parte e renas improvisadas de cavalinhos de brinquedos, que, além de puxar o trenó fictício do Papai Noel, também serviam de montaria para toda a garotada.

    “Vá pedir seu presente ao Papai Noel!” Disse sua mãe ao verem Papai Noel acenando sentado de sua cadeira com uma criança no colo. Uma fila enorme se formava e a irmã de Luizinho, menor que ele, não perdeu tempo em correr e se enfiar no meio da multidão.

    “Ele não é o Papai Noel, ele é só um homem… e aqui também não é o Polo Norte!” Respondeu o sabido Luizinho.

    Ele ficou ali de longe, observando a confusão enquanto sua mãe se entretinha com o presépio montado ali perto. Luizinho não entendia do por que as pessoas misturavam religião com Natal. ‘Não tem nada haver!’ Pensava ele ao lado de sua mãe, curioso sobre o presente que os Três Reis Magos vinham carregando em suas mãos.

    “Luizinho, vá ver sua irmã e não desgrude os olhos dela!”

    Luizinho foi, e foi com boa vontade, afinal o dia derradeiro era o dia seguinte e ele não poderia cometer um único deslize sequer, nem mesmo roubar na calada da noite os papais noéis de chocolates que sua mãe sempre pendurava na árvore de natal. Mas ao observar a multidão em fila, tentando falar com Papai Noel, seus olhos sequer se voltaram para sua irmã, que era convidada a se sentar no colo do bom velhinho para levar um dos leros mais sérios que já tivera em sua vida. Aconteceu que a neve que ele achou que fosse neve embaixo da cadeira do Papai Noel, não era neve, era uma montanha de cartas e essas cartas se espalhavam aos montes por todas as partes.

    ‘CARTAS!’ Luisinho suou frio como nunca havia feito em sua vida, seus olhos esbugalharam e sua cabeça doeu. ‘Minha carta!’ Nervoso e tentando por a culpa em alguém, Luisinho lembrou de que havia se esquecido de por a carta no correio e agora não havia mais tempo. Desesperado, correu para uma montanha de cartas qualquer para crer no que seus olhos viam. Umas mais magras, outras mais gorduchas… devia ter muitos brinquedos escritos ali, pensava sempre ao ver um envelope. Mas o que fazer? Ele não sabia, estava com medo de não ganhar nenhum presente aquele ano. Aliás, aquilo estava fora de cogitação, pois se perdesse aquela oportunidade, teria que esperar mais um ano para ganhar alguma coisa.

     Correndo ele foi ao encontro da sua mãe. “Mãe! Me dá uma caneta?” A mãe estranhou a palidez do filho, mas procurou na sua bolsa e deu-lhe uma. “Você está bem? Onde está sua irmã?”

    “Já venho!” Deu as costas e saiu correndo.

    Ele estava cego, tremendo, com medo. Nem viu sua irmã dar um beijo no rosto do Papai Noel. Se tivesse visto, teria ganhado um pirulito também. Mas isso não importava, ele correu para aquela montanha de cartas com a caneta na mão. Ele nem sequer a testou antes para ver se estava funcionando, tinha que funcionar. Então ele mexeu e remexeu naquela montanha, suando frio, com medo de que alguém estivesse olhando, com medo de que aquele falso Papai Noel se levantasse da cadeira para perguntar o que estava acontecendo. Era agora ou nunca, sua única e última oportunidade. Luizinho foi metendo a mão e logo escolheu uma carta, uma daquelas gorduchas. Olhou para os lados, desconfiado, e rabiscou o nome da criança que havia escrito aquela carta para escrever o seu por cima, do jeito que deu. Nem sequer colocou-a no chão para escrever, apoiou no joelho mesmo e escreveu. Depois chafurdou sua carta no interior daquela montanha e deixou-a lá.

    Ele olhou para os lados novamente e ninguém vira. O mundo saiu de suas costas, sorriu e carregou-o. Pronto! Agora era só esperar. Ele estava muito feliz, radiante. Não sabia o que tinha na carta, mas não importava, o importante era garantir o seu. Nem pensou na outra criança que poderia deixar de ganhar seu desejo.

    E ao chegar perto de sua mãe para devolver a caneta, a mãe perguntou. “Onde você foi Luizinho? Estávamos te procurando por todos os cantos!”

    Luizinho olhou para sua irmã e ela estava com uma cara de delatora. Ficou com medo. Será que ela vira? Mas aquela cara ela sempre tivera e como ninguém falou nada, ele retrucou.

    “Sabia que eu te amo, mãe?!” Sorriu para ver sua mãe também sorrir e passar a mão na sua cabeça.

    O mundo estava cor-de-rosa outra vez.

  • Um Filho da Noite

    Um Filho da Noite

    Num quarto escuro, decorado por uma coleção velha de ursos de pelúcia, livros, CDs e posters de bandas de rock, um notebook ainda em funcionamento, ao lado de um porta-retratos em cima da escrivaninha, indicava um e-mail não enviado. A sua frente, uma silhueta imóvel, angelical, relia em voz baixa, para si mesma, as linhas ali escritas.

    “Oi Jú! Como está por aí? Praia, Sol… nada mal não?! Bem que eu devia ter deixado os trabalhos um pouco de lado e ter ido com você e a Rê…

    O tempo por aqui está bem ruim, desde sexta-feira que tem caído aquela garoazinha fina e chata que só chove e não molha. Além disso, está fazendo muito frio por aqui. Vi o termômetro hoje na rua e estava marcando 11 graus, mas a sensação é de bem menos. Aiii amiga… pena que você foi viajar, poderíamos estar nos divertindo juntas ou pelo menos não fazendo nada, mas juntas… estou com tanto medo… é que a luz acabou outra vez e como ainda é cedo para dormir, pensei em entrar na net para me distrair um pouco e deixar o tempo passar. Acho que sempre tive medo de ficar sozinha e ainda mais no escuro!

    Eu até tranquei a porta do meu quarto agora. Meus pais também viajaram e eu fiquei aqui sozinha. Na verdade eu ainda estou tensa, estão acontecendo umas coisas desde sexta-feira que estão me deixando com muito medo, mas olha só, vou contar para você e aí você me diz se estou ou não pirando. Na sexta-feira, depois da aula, eu voltei para casa e fui para a academia.  Estava lotada e até então tudo bem, eu fiz tudo o que eu tinha para fazer e desci para ir embora. Coloquei meu casaco e quando pus o pé para fora da academia, eu ouvi alguém me chamar. Olhei para trás e não vi ninguém, mas quando eu virei para continuar andando, eu ouvi de novo. Me virei bem rápido, pois já estava assustada, e não consegui ver ninguém de novo. Tinha muita neblina. No começo achei que era coisa da minha cabeça para variar, mas aí, lá longe eu vi um cara todo estranho debaixo de um poste de luz. Ele tinha um chapéu e um casacão. Acho que era um sobretudo ou uma capa, sei lá.

    Acontece que fiquei encarando o tal sujeito um tempo e, de repente, senti um calafrio. Fiquei com medo, pois achei que o cara fosse um assaltante e quando tentei correr para dentro da academia de novo, não sei porque, mas meu corpo inteiro travou. Não conseguia mais me mexer de tanto medo. Isso nunca tinha acontecido comigo antes, nem mesmo daquela vez que eu estava andando de bicicleta e aqueles dois cachorros saíram correndo da casa da velha e vieram com tudo pra cima de mim! Mas voltando, então, meu corpo travou e para piorar a rua estava deserta. Não tinha ninguém! Só eu e o cara lá longe. Mas daí, o cara começou a vir devagar na minha direção. Eu não conseguia ver ele direito no começo, mas conforme ele foi se aproximando, pude ver sua silhueta no meio da neblina. Aliás, muito estranha essa neblina, já moro aqui faz 7 anos e nunca tinha visto um dia assim.

    De qualquer maneira eu queria correr e não conseguia e ele chegando cada vez mais perto, aí eu resolvi gritar, mas minha voz não saía. Meu… eu fiquei muito assustada naquela hora… e o cara chegando e chegando, mas mesmo assim eu ainda não conseguia ver seu rosto, mas eu vi que ele era bem magro e era meio corcunda também, mas o que me aterrorizou foram os olhos vermelhos dele. Bem sinistro o cara! De repente, quando eu já estava chorando de desespero, meu corpo destravou e eu subi correndo para a academia. Meu, mó mico, mas na hora eu nem pensei, cheguei gritando e todo mundo desceu comigo para ver o tal cara, mas até aí ele já tinha ido embora. Pior que eu liguei para casa para o meu pai vir me buscar, mas foi só ali que eu descobri que eles tinham ido viajar e nem me avisaram. O que me restou foi tomar coragem e ir embora para casa sozinha. Para variar estava sem carro, então tinha ido para a academia de bicicleta.

    Mas ainda bem que não aconteceu nada na volta, mas você acredita que quando cheguei em casa ainda tomei um baita susto. Ouvi um barulhão na janela do meu quarto e me lembrei do cara na hora. Aí, eu fechei o vidro da janela e subi a persiana para ver o que era e tomei um susto maior ainda, era um morcego enorme que estava rodeando a minha casa e de vez em quando ele vinha e batia na minha janela. Desci a persiana, cobri minha cabeça com o cobertor e até rezei para que nada de mal me acontecesse (E se estou te escrevendo agora é porque todas as minhas preces foram ouvidas rsrs).

    Nem preciso te falar que sonhei com um monte de coisas ruins né… sonhei que eu ia mal na prova, sonhei que meus pais despencavam com o carro de um penhasco, sonhei até com aquele cara… sonhei com os olhos daquele cara… mas graças a Deus a hora que ele apareceu no meu sonho eu acordei e já era de manhã! Não conta pra ninguém, mas eu acordei toda molhada, minha cama estava uma sopa e eu tive vontade de chorar. Demorou um bom tempo para eu esquecer aquela história, parar de tremer e aproveitar um pouco do dia. Mas cada vez que eu olhava no relógio e a noite se aproximava, meu medo vinha junto. Aiiii amiga… por quê você não está aqui? Meu, que medo. Só sei que nem saí de casa esse dia, jantei mais cedo, tranquei a casa inteira, fechei todas as janelas e me tranquei no meu quarto debaixo das cobertas para ficar vendo TV e esperar o sono chegar.

    Ainda bem que nada de anormal me aconteceu nesse dia, exceto pelo morcegão que fica rodeando minha casa agora. Mas acho que eu e ele estamos nos tornando amigos rsrs. De qualquer maneira acordei super disposta hoje e apesar do Sol não ter aparecido, a chuva deu uma trégua e, a tarde, eu resolvi sair um pouco de bicicleta. Ainda estava muito frio, mas eu me agasalhei bem. No final das contas acho que estava precisando disso, porque estava tão gostoso andar que eu até perdi a noção do tempo. Tanto que quando eu dei por mim já estava quase escurecendo e eu estava um pouco longe de casa. Ai, como sou burra Jú. Vim o caminho inteiro dizendo isso para mim mesma. Pior que como é feriado não tem ninguém na rua… mas como diz aquele ditado antes só do que mal acompanhada, em outras palavras, preferia estar sozinha que com aquele cara bizarro. Aliás, eu via o rosto dele em tudo que era canto. Impressionante o que nossa mente faz com a gente quando estamos com medo.

    Cheguei em casa sem problemas, mas aí outra coisa estranha aconteceu. A janela do quarto da minha mãe estava toda escancarada, com o vidro estilhaçado. Eu fiquei com muito medo que fosse aquele morcegão que tivesse entrado, tanto que eu peguei uma vassoura na cozinha e quando fui acender a luz, descobri que não tinha luz. ‘Mais essa agora!’ eu pensei. Estava com frio, morrendo de medo, cansada, com um morcegão podendo estar dentro de casa e sem luz. Ainda bem que estou com o meu celular velho e tem uma lanterna nele. Ele não tira foto, mas pelo menos tem uma lanterna rsrs. Fui subindo as escadas e meu plano era de sair correndo quando chegasse no andar de cima e ir direto para o meu quarto. Vim bem devagar e saí correndo gritando rsrs. Entrei no meu quarto, tranquei a porta e cá estou te enviando esse e-mail. Viva a tecnologia moderna rsrs . Nada que com um notebook e um wirelees a gente não resolva. Bom era isso, espero que você esteja se divertindo por aí, porquê eu não vejo a hora desse feriado acabar!

    Beijos amiga!

    Obs.: No próximo feriado vou querer ir com certeza com você! Muito melhor ficar aqui… aliás tem tanta gente estranha que fica por aqui e não vai viajar…”

    Num quarto escuro, decorado por uma coleção velha de ursos de pelúcia, livros, CDs e posters de bandas de rock, um notebook ainda em funcionamento, ao lado de um porta-retratos em cima da escrivaninha, indicava um e-mail não enviado. A sua frente, uma silhueta imóvel, angelical, relia em voz baixa, para si mesma, as linhas ali escritas. Nunca imaginaria que à suas costas dois olhos fundos, de cor avermelhada, pairavam sobre ela. Uma criatura bizarra, curva, de pele esbranquiçada, observando seus últimos instantes.

  • Olhos Mágicos

    Olhos Mágicos

    “É essa!” Peguei firme com as duas mãos uma 6’3’’ degrade verde e amarela nos fundos da casa de alguém que se dizia um feitor daquelas maravilhas.


    “Seu pai sabe que você está aqui?” Um amigo mais velho, que se tornaria meu cúmplice e exemplo, me olhava desconfiado, se certificando de que toda aquela história não acabasse sobrando também para ele.


    Foi assim que iniciei minha vida perto das ondas, lugar onde nunca mais desejei me afastar. Na verdade, ela tinha se iniciado dois meses antes, em dezembro de 1994, revezando uma prancha emprestada numa praia incrustada no meio do litoral norte paulista com mais três amigos, que o tempo mostrou não terem tido a mesma sintonia com o mar.


    O que realmente me levou a amar esse esporte não sei ao certo, mas a liberdade e o misticismo que o cercam foram fatores fulminantes. Eu podia simplesmente sair flutuando mar afora em cima apenas de uma tábua de poliuretano revestida com fibra de vidro e, quando voltasse moído para casa, poderia ler sobre histórias de lendas como Eddie Aikau ou heróis não identificados despencando de morras gigantes em Waimea Bay ou sendo encobertos pelo lip assustador de Pipe.


    Mas voltando a liberdade, quando estava lá fora, sentindo a ondulação passar por mim, eu me esquecia de qualquer problema que pudesse ter. No céu, minha visão era disputada pelo voo de albatrozes, gaivotas e urubus, na água, apenas a linha do horizonte me interessava, tentando antever alguma onda que passasse despercebida, vindo com meu nome escrito nela.


    Claro que no início ainda não possuía olhos de surfista, estes viriam com o tempo, mas era esperto o suficiente para saber me guiar pelos mais experientes. E uma das primeiras coisas que aprendi foi remar quando via os outros remando e, principalmente, em dias grandes, quando enxergar uma onda mais atrás fica complicado. Essa estratégia já me salvou inúmeras vezes de ser esmagado e de me dar uma estranha coloração roxa, quando ficar parado, vendo outros surfistas saindo em disparado para o outside, pode significar uma péssima opção. E faço um adendo de que quanto mais desesperados eles remavam, mais desesperado eu remava também.


    Difícil também era enxergar se o mar estava realmente bom ou não, afinal, o importante era estar lá, sentindo aquela liberdade, longe de tudo e todos, em perfeita harmonia com a natureza, e por isso, os olhos que sempre chegam antes dos de surfista e podem ou não continuar ao longo da vida são os olhos mágicos. Estes sim são os que nos fazem apreciar cada segundo em cima de uma prancha ou de alguma outra atividade que amemos fazer. Fosse o tempo que fosse, o frio que fosse, o mar que fosse, o crowd que fosse, eu sempre estava lá conferindo, surfando com um sorriso largo estampado de face a face, admirando a magia com que a natureza formava cada onda.


    Internet?! Quem precisa de internet quando se tem imaginação? Quando se tem olhos mágicos? Naqueles tempos a internet estava nos primórdios e pensar que um dia poderíamos ver uma ondulação entrando em tempo real do outro lado do mundo era surreal. Portanto não era difícil entender o porquê passava horas e horas dentro da sala de aula imaginando o quão perfeito o mar deveria estar e, se não bastasse imaginar, eu tinha que eternizar aqueles momentos nos meus cadernos. Em todos eles. Não me importando se eram apenas esboços, pois meus olhos mágicos davam cor, forma e movimento para os mesmos.


    Um dia, quando ainda me vangloriava de fazer uma sessão de surf sem acertar com minha prancha um único pobre infeliz sequer e meu maior pesadelo era sonhar que eu não conseguia mais ficar de pé para deslizar reto numa onda já tentando virar na base, costumava perguntar humildemente a surfistas, cujos cabelos grisalhos delatavam sua experiência. “Como você faz para ir mais rápido na onda?” De vez em quando um daqueles senhores de pranchões bem que tentava alguma explicação, mas como em tudo o que você tenta conversar mais seriamente no mar, sempre acabava num “Você pega com o tempo!”, já me fazendo a boia para pegar a de trás.


    Mas não é que eles estavam certos e eu aprendi a acelerar antes mesmo de dominar por completo a arte de permanecer sentado na prancha?! E logo, aqueles mesmos surfistas que eram antes pegos de surpresa em meio a tanta indagação, se viam rendidos a velocidade com que um garoto com força de vontade pode evoluir. Três meses depois já ensaiava um cut back e seis meses depois já estava acertando a primeira batida. Eu nunca tive o surf de um garoto prodígio, aliás, anos mais tarde, percebi que nunca fui o melhor no que me propus a fazer, mas sempre me destaquei. Por conta disso, hoje sei que cometia e ainda cometo muitos erros na minha linha, mas eles, perto da vontade com que encaro as ondas são meros coadjuvantes.


    Com o meu surf numa evolução constante, era natural querer sair e desbravar outras ondas. Por isso, minha primeira surf trip fora escalar algumas pedras e me jogar no mar da praia ao lado. Vestindo um short john, acordei um amigo as 5:30h de uma manhã fria de inverno, com o orvalho da grama queimando nossos pés, para podermos aproveitar o quanto pudéssemos do terral e da solidão congelante. Fora numa manhã assim que vi pela primeira vez uma parede líquida cristalina me encobrir para segundos depois me arremessar paralisado e maravilhado para o fundo do mar.


    Mas aquilo havia sido o bastante e meu sangue passou a fervilhar todos os dias que via que o mar podia me proporcionar aquela sensação novamente. “Quero ser um tube rider!” Dizia sempre sem ao menos saber o que significava a palavra “rider”. Aliás, essa não foi a única palavra que aprendi nesse novo meio e após certo tempo já tinha enriquecido e muito minhas expressões e gírias. Tanto que quase me tornei incomunicável. Mas ao contrário da minha dificuldade de me expressar verbalmente, meu surf fluía de vento em popa e quando vi um surfista dando um 360º numa junção de respeito, mudei totalmente minha visão do surf. Pelo menos foi até eu quebrar acidentalmente minha quilha do meio e perceber que essa manobra é um mero truque. Mas e daí? Quem sabia disso?


    E assim que fui me desenvolvendo ao longo dos anos, mas ao mesmo tempo em que meu surf evoluía e meus olhos de surfista eram aprimorados, sem perceber, fui perdendo uma coisa importantíssima para mim. Como se aquela frase de que não se pode ganhar algo sem perder algo fosse a maior verdade do mundo. Comecei a ficar mais crítico em relação ao mar e as mesmas ondas que antes sempre me pareceram perfeitas, começavam a se apresentar não tão boas. Os invernos começaram a ficar mais frio a cada ano, o vento parecia nunca mais acertar e as ondas sempre gorduchas ou fechadeiras. Nem vou mencionar o fundo, esse sim parecia que deixou de colaborar de vez. E um dia, sentado num banco feito de um tronco de árvore de frente para o mar que me acolheu, perguntei para um amigo o que será que tinha acontecido. “Por que antes era tão melhor que agora? Deve ser o efeito estufa estragando o mundo inteiro ou a irresponsabilidade das pessoas construindo casas na orla e ameaçando as praias brasileiras?” Tudo isso tem sua razão, mas a bem da verdade, e que me dei conta só um tempo depois quando meu desejo de surfar havia se tornado mais uma mera obrigação, é que tinha perdido o brilho dos meus olhos ao ver uma onda. Eu havia perdido meus olhos mágicos.


    Quando percebi isso me senti péssimo, mas de alguma forma entrar a fundo dentro de mim foi também minha salvação. Eu tinha então duas possibilidades. A primeira era a de me esconder de mim mesmo e a segunda era a de sair em busca dos meus olhos mágicos novamente. Eu não tive dúvidas, juntei o pouco de grana que ainda me restava no banco, dei uma geral na casa e recomendações para um vizinho continuar dando comida e água para um gato que vivia e ainda vive ali para fazer uma surf trip. A primeira internacional. O local escolhido? Costa Rica é claro! O filme de Bruce Brown, Endless Summer II, tinha me feito sonhar acordado por muito tempo para esquecê-lo e a expressão de felicidade de Pat O’Connel mandando ver em Playa Negra e Roca Bruja junto com Wingnut para mim já era o suficiente. 


    (continua…)